Tóquio – O comércio de itens usados por mulheres no Japão, como roupas íntimas ou meias, não é recente, mas a pandemia trouxe uma novidade para este curioso mercado: a demanda por máscaras usadas.
Uma reportagem do Portal Shukan Josei Prime expôs uma situação que vem sendo observada em publicações do Twitter. Através da hashtag #使用済みマスク売ります (shiyousumi masuku urimasu / vendo máscaras usadas), meninas que decidiram vender seus itens de proteção contra o vírus encontraram clientes dispostos a pagar por eles.
Uma estudante universitária que vive em Tóquio, identificada como “A”, conta que ganha ¥20 mil por mês com as vendas de suas máscaras. Os clientes aparecem pelo Twitter e entram em contato.
“Eu vi outra menina vendendo pela internet e usei a conta dela como referência para criar a minha. Comecei a vender e deu certo”, diz.
Ao pesquisar pela hashtag, a reportagem encontrou diversos anúncios parecidos, em contas diferentes, mas com mensagens claras com esta:
“Por causa de problemas financeiros estou vendendo máscaras usadas por ¥1 mil a unidade”.
“A” era uma das meninas que administra uma conta com este tipo de anúncio no Twitter.
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Não são só as máscaras usadas

Pode parecer nojento e até mesmo incompreensível o fato de que tenham muitos homens interessados em pagar caro por produto utilizado de forma íntima por uma pessoa desconhecida. Mas é este o ponto, pois a venda movimenta uma indústria baseada no fetiche sexual que não começou na pandemia, já existe há muito tempo no Japão.
O escritor de não-ficção Atsuhiko Nakamura, que estuda questões como a pobreza e os problemas sociais, relembra que isto é apenas uma demanda sendo suprida, como aconteceu nos anos 1990, uma época conhecida como “burusera”. Neste período, colegiais vendiam peças de seus uniformes para lojas que revendiam aos homens interessados.
“As jovens que terminaram a escola e vivem no interior não costumam ganhar mais do que ¥110 mil por mês. A renda é baixa e essas pessoas acabam se submetendo para ganhar mais dinheiro. Na década de 1990 houve uma explosão do interesse pela compra de roupa íntima usada, os compradores eram homens com mais de 60 anos na época”, explicou.
Em 2010 houve outro “boom” da venda de itens íntimos de mulheres aos homens. Uma revista masculina passou a dar calcinhas de brinde ao comprar os exemplares e fez sucesso. Os anos passam, mas a história é a mesma. Enquanto tiver demanda para este tipo de venda, há mulheres dispostas a oferecer.
“Para quem vende seus itens íntimos, as máscaras usadas se tornaram um novo produto. Acredito que muitas que vendiam calcinhas agora estão vendendo máscaras. É um produto mais barato e que é naturalmente descartado após o uso. Isto deve ter impulsionado o mercado”, diz Nakamura.
Mas isto não quer dizer que seja um mercado bem aceito na sociedade japonesa. Para muitos japoneses, este tipo de venda choca tanto quanto surpreende os estrangeiros que não conhecem o país e nunca ouviram falar de nada parecido.
Com a publicação da matéria pelo portal, a hashtag de vendas das máscaras usadas se tornou uma vitrine de inúmeros posts de compartilhamento. Internautas japoneses comentaram o quanto ficaram surpresos ou assustados e o assunto gerou repercussão.