A estiagem histórica que atinge a província de Kochi trouxe à tona vestígios de uma antiga comunidade submersa há mais de quatro décadas em Niyodogawa. Com o volume de chuvas no nível mais baixo já registrado, partes de uma “vila fantasma” reapareceram sob o leito do rio, enquanto trechos do Rio Shimanto apresentam níveis drasticamente reduzidos, gerando preocupação quanto aos impactos na pesca do ayu e na rotina dos moradores.
A escassez de precipitação — considerada um fenômeno que ocorre apenas uma vez a cada 30 anos — provocou uma queda acentuada no volume dos reservatórios e alterou significativamente a paisagem local. Em meio à seca que afeta diversas regiões do país, especialistas analisam os reflexos prolongados da falta de água sobre comunidades e atividades econômicas.
Em Niyodogawa, áreas antes encobertas pelo reservatório voltaram a ser visíveis. Restos de construções, como telhados, terraços e fundações de casas, surgiram após décadas submersos desde a construção de uma represa na região. Antigos moradores relembram a vida no vilarejo, contando histórias da infância no vale e das visitas a uma tradicional pousada que deixou de existir quando a área foi inundada.
A Represa de Odo, fundamental para o abastecimento de Kochi, chegou a registrar 0% de armazenamento — algo inédito desde o início de sua operação e muito abaixo da média de cerca de 80% esperada para esta época do ano. Mesmo com as chuvas recentes elevando o índice para aproximadamente 17%, as autoridades reforçam que o cenário ainda é preocupante. Com o nível da água excepcionalmente baixo, partes do antigo distrito de Funato reapareceram, incluindo bases de residências, uma casa de banho pública e os vestígios de uma ponte que ligava a comunidade.
Kataoka Kazuhiko, de 74 anos, cuja família morava na área antes da inundação, acompanhou a equipe de reportagem pelo local agora exposto. Ele indicou onde ficavam as casas e recordou momentos da infância, como quando recebia uma moeda de cinco ienes de um parente na pousada da vila. Atualmente, apenas a estrutura de um terraço resiste ao tempo, lembrando o espaço onde moradores e visitantes se reuniam.
A seca também afeta o Rio Shimanto, o mais extenso do oeste japonês e famoso pela pesca de ayu e enguias. Em diversos pontos, o leito está exposto, com a água correndo por uma faixa muito mais estreita do que o habitual. Em áreas onde o rio costumava ter cerca de 250 metros de largura, agora resta um canal de aproximadamente 60 metros, deixando pedras e bancos de areia visíveis.
Segundo o Escritório do Rio Nakamura, o nível do Shimanto está abaixo da média desde o fim do ano passado, com volume atual inferior à metade do normal. Cooperativas de pesca alertam que, se a estiagem continuar, a subida do ayu pelo rio poderá ser seriamente comprometida nos próximos meses.
Diante do agravamento da situação, o governo da província de Kochi criou pela primeira vez em 27 anos um comitê de medidas contra a seca e solicita que a população reduza o consumo de água. Autoridades destacam que, caso as chuvas não se normalizem, os impactos poderão atingir não apenas o setor produtivo, mas também o cotidiano da população.
A Agência Meteorológica do Japão projeta que o baixo volume de chuvas deve persistir por cerca de mais um mês nas áreas banhadas pelo Pacífico, tanto no leste quanto no oeste do país, aumentando o risco de que os efeitos da estiagem se intensifiquem em nível nacional.





