Quando o labrador retriever Masa cruza a porta da enfermaria pediátrica de um hospital em Tóquio, o ambiente muda imediatamente. Sorrisos surgem, olhares atentos acompanham cada passo e, por alguns instantes, a rotina hospitalar dá lugar à leveza.
Masa é um facility dog, nome dado a cães treinados para oferecer apoio emocional a crianças que permanecem hospitalizadas por longos períodos ou que aguardam transplantes de órgãos. No Japão, esses animais atuam de forma integrada às equipes médicas, seguindo planos terapêuticos específicos para cada paciente, mas ainda estão presentes em poucos hospitais.
A proposta é simples e poderosa: levar momentos de normalidade a crianças que passam grande parte do tempo confinadas à enfermaria. Apesar de o conceito ter chegado ao país há cerca de 15 anos, o alto custo de manutenção faz com que o número de cães em atividade ainda seja reduzido.
Em outubro, Masa visitou o Centro Nacional de Saúde e Desenvolvimento da Criança. Durante a visita, as crianças passaram a brincar de médico e a interagir espontaneamente com o cão, transformando o espaço hospitalar em um cenário de imaginação.
Entre elas estava Rui Hiyama, de três anos, que simulou aplicar uma injeção de brinquedo em Masa enquanto sua mãe, Saori, perguntava se ele estava melhor. A resposta veio com um sorriso e um animado “Sim”.
Rui enfrenta um tratamento contra o câncer e está internada há quase um ano. Mesmo sem poder sair da enfermaria, ela conseguiu dar uma pequena volta ao lado de Masa, segurando a guia. Segundo a mãe, a mudança de humor é visível sempre que a filha passa um tempo com o cão.
Além de proporcionar alegria, a presença de Masa também ajuda a reduzir a ansiedade durante exames e procedimentos médicos. Um menino de 11 anos contou que o cão o ajudou a enfrentar testes que lhe causavam medo. Em uma das visitas, eles jogaram Jenga juntos, e cada movimento do cão arrancava reações de surpresa e entusiasmo.
Responsável por acompanhar Masa, Ayami Gonnokami é enfermeira pediátrica certificada e possui 25 anos de experiência clínica. Ela atua em constante diálogo com médicos e outros profissionais de saúde, avaliando a melhor forma e o momento adequado para que o cão interaja com cada criança.
De acordo com Gonnokami, algumas crianças acabam se isolando emocionalmente durante tratamentos dolorosos. Nessas situações, a simples presença silenciosa do cão pode oferecer conforto. Em um dos casos acompanhados por ela, uma criança debilitada e acamada conseguiu se levantar e caminhar após interagir com Masa.
Para Nobuyuki Yotani, chefe do departamento de cuidados paliativos do hospital, iniciativas como essa ajudam a preservar a individualidade das crianças, mesmo diante das limitações impostas pela hospitalização. “O tempo com o Masa permite que elas voltem a ser apenas crianças, sem o peso da doença”, afirmou. “Isso tem um impacto direto na qualidade de vida.”
Masa faz parte de um programa da organização sem fins lucrativos Shine On! Kids, iniciado em 2010 no Hospital Infantil de Shizuoka. Atualmente, há um facility dog em cada um de quatro hospitais localizados em Tóquio e na província de Kanagawa. A próxima etapa prevê a chegada de um cão ao Hospital Infantil de Kobe, na província de Hyogo, no ano fiscal de 2027.
O objetivo da organização é expandir o programa para todos os 15 hospitais pediátricos especializados em câncer no Japão. No entanto, os custos representam um grande desafio: a manutenção anual de um único cão, incluindo despesas médicas e de pessoal, gira em torno de 10 milhões de ienes, valor atualmente coberto principalmente por doações.
A Shine On! Kids pretende reunir dados que comprovem a eficácia médica dos facility dogs e, com isso, buscar o apoio do governo para que o programa seja incorporado ao sistema oficial de honorários médicos.





