Uma investigação especial da Japan News Network (JNN) revelou uma realidade cada vez mais preocupante no Japão: trabalhar já não é garantia de sair da pobreza. Pressionados pela alta da inflação e por salários estagnados, muitos trabalhadores têm recorrido à ajuda de bancos de alimentos para conseguir sobreviver, escancarando o aprofundamento da desigualdade social.
Somente em 2025, Tóquio registrou um número recorde de pessoas em busca de distribuição gratuita de alimentos. Entre elas estão milhares de cidadãos economicamente ativos que, apesar de terem emprego, não conseguem cobrir gastos essenciais como alimentação, aluguel e aquecimento doméstico.
Emprego precário e renda insuficiente
O país conta atualmente com cerca de 8,9 milhões de trabalhadores em empregos não regulares — modalidade que inclui contratos temporários, terceirizações e trabalho por hora. Essas posições costumam oferecer baixa remuneração, instabilidade e poucas chances de progressão profissional.
Um dos casos apresentados pela reportagem é o de um homem de 55 anos, integrante da chamada “geração do gelo”, formada por jovens que se graduaram durante a recessão dos anos 1990. Vivendo com cerca de 140 mil ienes por mês, ele afirma não ter condições de consertar o aquecedor de casa, limita-se a comprar alimentos com desconto e convive diariamente com o medo de envelhecer sem apoio financeiro ou familiar.
A consolidação de uma “subclasse” social
Para o sociólogo Kenji Hashimoto, professor da Universidade Waseda, o mercado de trabalho japonês passou a apresentar uma divisão estrutural profunda. Ele define os trabalhadores não regulares — excluindo mulheres casadas com parceiros financeiramente estáveis — como integrantes de uma “underclass”, ou subclasse social.
De acordo com seus estudos, esse grupo recebe, em média, menos da metade da renda anual de um trabalhador regular: cerca de 2,16 milhões de ienes, contra 4,86 milhões. A instabilidade econômica também impacta diretamente a vida pessoal, já que muitos evitam o casamento e a formação de família, o que contribui para o isolamento social e o enfraquecimento dos laços comunitários.
Mães solo enfrentam exclusão ainda maior
A desigualdade se manifesta de forma ainda mais dura entre mães solo. A reportagem destaca que empresas frequentemente relutam em contratá-las como funcionárias regulares, temendo faltas relacionadas ao cuidado com os filhos.
Uma das mulheres entrevistadas atua como freelancer e tem renda mensal que não ultrapassa 150 mil ienes, dependendo constantemente de doações de alimentos. Em outro relato extremo, uma mãe contou que precisou trabalhar em bares noturnos e até na indústria do sexo para garantir que os filhos pudessem ingressar na universidade, diante da falta de alternativas que cobrisse os custos educacionais.
Invisibilidade política e o discurso da “auto-responsabilidade”
Segundo Hashimoto, as demandas dessa camada da população raramente chegam ao centro das decisões políticas. A rotina exaustiva e a precariedade fazem com que muitos não tenham tempo nem energia para participar da vida política ou exercer o direito ao voto.
Em contrapartida, existe um grupo social influente — cerca de 13,2% da população — composto por pessoas de alta renda e escolaridade, que defende a ideia de que a pobreza é consequência exclusiva das escolhas individuais. Essa visão da “auto-responsabilidade” acaba influenciando políticas públicas e contribuindo para a manutenção das desigualdades atuais.
Alertas para o futuro
Especialistas ouvidos pela JNN alertam que a insistência em soluções pontuais, sem reformas estruturais, pode levar o Japão a um cenário de instabilidade social crescente. O descontentamento popular pode abrir espaço para discursos populistas, baseados em promessas fáceis, que tendem a agravar ainda mais os problemas de fundo.
Hoje, o esforço individual já não assegura uma vida digna para uma parcela significativa da população. A ausência de políticas eficazes de redistribuição de renda e proteção social tem aprofundado uma fratura social considerada cada vez mais perigosa.
A herança da “geração do gelo”
O termo “geração do gelo” refere-se aos japoneses que tentaram ingressar no mercado de trabalho entre 1993 e 2004, período marcado pelo colapso da bolha econômica. No Japão, o sistema de contratação conhecido como shinsotsu concentra as admissões de funcionários regulares logo após a graduação.
Com a crise, empresas suspenderam contratações, fazendo com que milhões de jovens perdessem sua única chance de conseguir um emprego estável. Empurrados para trabalhos temporários, muitos nunca conseguiram migrar para posições regulares, já que essa transição se torna extremamente difícil após os 30 anos.
Atualmente, essas pessoas estão na faixa dos 40 e 50 anos, com pouca poupança, baixa taxa de casamento e perspectivas limitadas de aposentadoria. Conhecida também como “geração perdida”, esse contingente soma entre 17 e 20 milhões de indivíduos que não alcançaram o padrão de vida de seus pais, tornando-se um símbolo das consequências de décadas de desigualdade estrutural no Japão.





