Com efeitos de luz, coreografias sincronizadas e uma plateia cantando em uníssono, Kizuna AI protagonizou dois dias de apresentações esgotadas em Tóquio, reunindo milhares de fãs como qualquer estrela pop em alta.
A diferença é que a artista nunca esteve fisicamente no palco. Trata-se de um avatar em estilo anime — classificado como VTuber (virtual YouTuber) — cuja voz e movimentos são executados por profissionais reais nos bastidores.
Criada em 2016 pela empresa Activ8 Inc., Kizuna AI se tornou referência no segmento e ajudou a consolidar o conceito de VTubers, hoje amplamente difundido entre criadores de conteúdo e artistas digitais.
Em 2020, a dubladora Nozomi Kasuga revelou ser a voz por trás da personagem — algo incomum nesse meio, onde a identidade dos intérpretes costuma permanecer em sigilo. Para muitos fãs, justamente o caráter virtual contribui para a identificação, tornando a experiência mais acessível do que com ídolos tradicionais.
Mesmo após uma pausa em 2022, Kizuna AI manteve sua base fiel de seguidores — hoje superior a 3 milhões no YouTube — e retomou suas atividades no início do ano passado.
A devoção do público ficou evidente no retorno aos palcos. O fã chinês Guo Zhaoheng, de 26 anos, viajou ao Japão para assistir ao show realizado em Shinjuku, em setembro. “Fiquei muito triste durante o hiato. Vir aqui foi emocionante — quase chorei”, relatou.
A personagem foi idealizada por Takeshi Osaka e Junji Matsuda, com a proposta de representar uma inteligência artificial curiosa sobre os humanos. Apesar do conceito futurista, sua execução depende fortemente de trabalho humano.
Nos bastidores, a tecnologia de captura de movimento é essencial. Em estúdios avançados, dançarinos vestem trajes especiais que permitem transferir seus movimentos para o avatar em tempo real. Foi nesse contexto que a coreógrafa Amika, de 25 anos, passou a atuar, após se interessar pelo crescimento do conteúdo digital.
Ela foi introduzida à área por Yuka Araki, responsável por diversas coreografias da personagem e atualmente à frente de uma agência que também recruta profissionais para esse tipo de produção.
Segundo Araki, o avanço dos VTubers abriu novas possibilidades para dançarinos. Antes focados em carreiras como apoio de palco, muitos agora buscam especificamente atuação em captura de movimento — uma área onde idade e aparência têm menos relevância.
A origem da personagem remonta à época universitária de seus criadores, que decidiram unir a ideia de um personagem digital com o potencial de negócios no YouTube. O nome “Kizuna” remete a conexão, enquanto “AI” também evoca a palavra japonesa para amor, reforçando o conceito da personagem.
Para Osaka, o design visual — inspirado no anime, mas sem exageros — foi determinante para o sucesso duradouro. Já a recepção variou: enquanto o público internacional rapidamente abraçou a ideia de um personagem virtual “real”, no Japão a popularidade cresceu gradualmente com a explosão do mercado de VTubers.
Outro fator relevante é o fenômeno do “oshi-katsu”, prática comum no Japão em que fãs investem tempo e dinheiro para apoiar seus ídolos. Esse engajamento contínuo, impulsionado pelas redes sociais, fortalece ainda mais a relação entre público e criadores.
Durante sua retomada, Kizuna AI também se apresentou fora do Japão, com shows em países como Canadá e Malásia. A expectativa, segundo Osaka, é expandir ainda mais sua presença global, incluindo participações em festivais internacionais como o Coachella Valley Music and Arts Festival.
Apesar da crescente concorrência — tanto de novos VTubers quanto de conteúdos gerados por inteligência artificial — Osaka acredita que o diferencial continuará sendo o fator humano.
“Por mais que a tecnologia evolua, as pessoas valorizam saber que há alguém se dedicando por trás da criação”, afirmou. “A IA pode facilitar a produção, mas o público ainda busca autenticidade e esforço humano.”





