Um funcionário da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) afirmou, em depoimento à Polícia Federal (PF), que a atual gestão da agência manteve operações de invasão hacker contra sistemas do governo do Paraguai. Entre os alvos estavam o Congresso, a Presidência da República e autoridades envolvidas nas negociações da usina de Itaipu.
As informações foram publicadas pelo portal UOL e confirmadas pela TV Globo, que teve acesso a trechos do depoimento. O servidor relatou que os ataques cibernéticos iniciaram durante o governo de Jair Bolsonaro, mas continuaram na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, com a autorização expressa do atual diretor da Abin, Luiz Fernando Corrêa, e do então diretor interino Saulo de Cunha Moura, que esteve à frente do órgão entre março e maio de 2023.
Depoimento do servidor
De acordo com o depoimento, a ação tinha como objetivo obter informações sigilosas sobre os valores em negociação no Anexo C do Tratado de Itaipu. O servidor detalhou o uso de ferramentas de intrusão como Cobalt Strike e o envio de e-mails fraudulentos com engenharia social para capturar senhas e acessos de autoridades paraguaias.
Os sistemas invadidos incluíram os do Congresso do Paraguai (Senado e Câmara) e da Presidência da República. Segundo o depoente, as operações foram conduzidas a partir de servidores hospedados no Panamá e no Chile e contaram com aprovação da alta cúpula da Abin.
“O objeto da operação era a obtenção dos valores que seriam negociados do Anexo C […]. Foram alvos o presidente do Paraguai, o presidente do Senado e autoridades relacionadas diretamente à negociação”, afirmou o servidor à PF.
Paraguai nega ataques cibernéticos
Em nota oficial, o chanceler paraguaio Rubén Ramírez Lezcano afirmou que não há evidências de que o Brasil tenha promovido ataques cibernéticos contra sistemas do país.
“O Paraguai não tem nenhuma evidência de que o Brasil tenha atacado seus sistemas informáticos”, disse o ministro.
Ele ressaltou que as tarifas de energia já estão acordadas até 2027 e que as negociações do Anexo C de Itaipu seguem dentro do cronograma previsto. Também afirmou que as comunicações com o Brasil são institucionais e que os órgãos de inteligência dos dois países estão em contato.
“Me informaram que vai haver uma aclaração respectiva de parte do Brasil”, completou Lezcano após conversa com o chanceler brasileiro Mauro Vieira.
Posicionamento do governo brasileiro
O governo Lula divulgou uma nota nesta segunda-feira (1º) afirmando que não patrocinou espionagem contra o Paraguai e que interrompeu as operações assim que tomou conhecimento delas.
“O governo do Presidente Lula desmente categoricamente qualquer envolvimento em ação de inteligência contra o Paraguai”, diz o comunicado.
O texto também destaca que a operação foi iniciada em junho de 2022, durante o governo Bolsonaro, e foi descontinuada pelo diretor interino da Abin em 27 de março de 2023, assim que a nova gestão tomou conhecimento do caso.
O governo reforça que Luiz Fernando Corrêa assumiu oficialmente o comando da Abin apenas em 29 de maio de 2023, quando seu nome foi aprovado pelo Senado, e que, nessa data, a operação já estava encerrada.
“O governo do Presidente Lula reitera seu compromisso com o respeito e o diálogo transparente como elementos fundamentais nas relações diplomáticas com o Paraguai e com todos seus parceiros na região e no mundo”, conclui a nota.