A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, afirmou nesta quarta-feira que pretende acelerar a implementação de um congelamento do imposto sobre consumo aplicado aos alimentos. A proposta surge em meio às preocupações com os impactos econômicos da crise no Oriente Médio e ao aumento da pressão sobre as finanças públicas japonesas.
Durante um debate no parlamento com líderes da oposição, Takaichi declarou que o governo tentará conter ao máximo a emissão de dívida pública enquanto prepara um orçamento suplementar para enfrentar possíveis efeitos prolongados da instabilidade internacional na economia japonesa.
As declarações aconteceram em um momento delicado para o país. Os rendimentos dos títulos do governo japonês atingiram o maior nível em quase três décadas, impulsionados pelo temor de inflação crescente em um Japão dependente da importação de recursos, além das preocupações do mercado com a deterioração fiscal.
O debate parlamentar foi conduzido pela primeira vez por Yuichiro Tamaki, após mudanças no cenário político japonês provocadas pelas eleições de fevereiro. Seu partido passou a ocupar posição de destaque no parlamento diante da derrota da Aliança Centrista Reformista e das incertezas sobre uma possível fusão partidária na Câmara dos Conselheiros.
Criados em 2000 com inspiração no modelo britânico de perguntas ao primeiro-ministro, os debates entre líderes políticos japoneses se tornaram menos frequentes nos últimos anos. Entre 2021 e 2024, por exemplo, praticamente não houve sessões do tipo.
O encontro desta semana marcou o primeiro debate desde novembro e apenas o segundo sob o governo Takaichi. A sessão prevista anteriormente para abril havia sido cancelada devido à agenda da premiê, que retornou horas antes de uma reunião diplomática com o presidente sul-coreano Lee Jae Myung.
Grande parte da discussão girou em torno da decisão recente de revisar a elaboração de um orçamento suplementar, mesmo após o Japão aprovar há pouco mais de um mês um orçamento recorde de 122,31 trilhões de ienes para o ano fiscal de 2026. A mudança chamou atenção porque Takaichi havia afirmado anteriormente que não via necessidade de medidas adicionais neste momento.
Sobre o congelamento do imposto sobre alimentos, a premiê reforçou que deseja colocar a proposta em prática assim que um conselho multipartidário concluir um relatório preliminar previsto para este verão.
A medida, porém, enfrenta resistência crescente. Partidos de oposição começaram a reduzir o apoio devido a dúvidas sobre sua viabilidade econômica. Na semana passada, a Organisation for Economic Co-operation and Development criticou a proposta, classificando-a como cara e pouco eficiente, além de recomendar aumentos graduais no imposto em vez do congelamento.
Outro tema debatido foi o subsídio destinado a manter o preço da gasolina abaixo de 170 ienes por litro. Takaichi afirmou analisar seriamente propostas para encerrar gradualmente o programa, retomado em março e que deve consumir cerca de 1 trilhão de ienes até o final de junho.
Apesar do tom relativamente amistoso entre Takaichi e Tamaki, o líder da CRA, Junya Ogawa, adotou postura mais dura e acusou o governo de lentidão na resposta econômica. A premiê respondeu dizendo que as medidas vêm sendo avaliadas “desde uma fase relativamente inicial”.
Na área diplomática, Takaichi comentou positivamente a recente visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à China. Segundo ela, o diálogo entre as duas potências pode contribuir para a estabilidade regional.
As relações entre Japão e China seguem tensas desde declarações feitas pela premiê em novembro, quando sugeriu a possibilidade de mobilização das forças de defesa japonesas em caso de conflito envolvendo Taiwan. Mesmo assim, Takaichi afirmou estar aberta ao diálogo com Pequim e defendeu uma postura cautelosa.
O debate também refletiu a fragmentação da oposição japonesa após a ampla vitória do Partido Liberal Democrata nas eleições para a Câmara dos Representantes. Durante os 45 minutos de sessão, líderes de seis partidos participaram com tempos reduzidos de fala.
Entre eles estavam Toshiko Takeya, Sohei Kamiya e Takahiro Anno, representante de um partido voltado para tecnologia e inovação.
No encerramento, Anno questionou a política japonesa para inteligência artificial e mencionou preocupações envolvendo o modelo Claude Mythos, desenvolvido pela empresa americana Anthropic. A sessão terminou em tom descontraído quando ele brincou oferecendo-se para dar aulas particulares sobre IA à primeira-ministra, arrancando risadas no plenário.





