Yokohama – Antes de pular na frente do trem aos 16 anos, Saki queria ser enfermeira e sonhava em ajudar outras pessoas no futuro. No ensino médio, ela entrou em uma escola de enfermagem na província de Kanagawa e viu os sonhos serem sufocados pela pressão, dificuldades de relacionamento e incertezas para o futuro.
“Eu não estava me dando bem com uma professora e ela brigava comigo todos os dias, até que se tornou um sofrimento ir para a escola. Ao mesmo tempo, o relacionamento dos meus pais estava péssimo e eu não me sentia tranquila em casa. Eu não tinha mais um lugar meu e isto foi me afetando emocionalmente”, explicou em uma reportagem do Nikkan SPA!.
As circunstâncias foram se agravando até Saki perceber que estava com depressão. Um mês depois de começar as aulas, ela passou a acordar em sofrimento todas as manhãs, se atrasava para a escola e muitas vezes faltava. Depois de dois meses nessa situação, se deu conta de que era depressão e precisava fazer algo.
“Eu já sabia um pouco sobre depressão pelos estudos na área da saúde e logo depois fui mesmo diagnosticada. Eu comecei o tratamento e fiquei em casa no verão, o que foi bom, mas quando as férias acabaram eu tive que voltar para a escola e piorei”, contou.
O retorno para a rotina da escola fez o estresse aumentar, as condições pioraram e Saki passou a pensar que queria morrer. Ela disse que pensava nisso todos os dias. Os pais contaram na escola que a filha estava com depressão, mas a resposta não foi muito compreensiva.
A escola alertou que mesmo doente ela deveria assistir as aulas ou acabaria repetindo de ano. Isto foi mais um agravante que intensificou a pressão, o estresse e o sentimento que tomava mais força dentro de Saki todos os dias: a vontade de morrer.
“Um dia eu tive um aconselhamento de carreira com um professor, mas tudo o que eu pensava era que queria morrer. Eu sei que os professores não queriam que eu repetisse de ano, mas eu me sentia pressionada. Pensei que por serem professores de enfermagem, teriam mais compreensão sobre a doença, mas não tiveram”, relatou.
A ideia de repetir de ano trouxe um novo impacto e os sentimentos de Saki afundaram ainda mais. “Por mim, eu podia repetir o ano mesmo, mas os professores pressionavam que eu tinha que me formar em três anos e eu não tinha confiança para dizer que daria conta de ir para a escola todos os dias”.
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A tentativa de suicídio
Saki chegou no limite e em um fim de tarde em novembro de 2019, tomou a decisão que mudaria sua vida para sempre. Ela pulou nos trilhos momentos antes da passagem de um trem e foi atropelada, mas algo raro aconteceu.
O corpo da jovem acabou protegido embaixo do vagão, mas as duas pernas foram esmagadas. Ela foi levada aos hospital e conseguiu sobreviver, mas teve que amputar as pernas.
“Na hora eu lembro de pensar que eu queria morrer, mas só as minhas pernas tinham sido atropeladas e eu não poderia morrer. Eu cheguei a pensar também que muitas pessoas tinham me socorrido, mas deveriam salvar vidas mais importantes do que a minha e eu não conseguia entender o motivo de ter sido salva”, relembrou.
Depois do acidente e de perder as pernas, Saki tinha ainda mais motivos para se sentir deprimida, mas a nova situação acabou renovando suas forças.
“Quando encontrei os meus pais e avós chorando no quarto do hospital eu fiquei feliz de estar viva só pela chance de poder ver eles de novo”, disse emocionada.
Ela teve que passar um ano internada, fez reabilitação e mesmo após três anos do acidente, segue com uma agenda médica. Em novembro do ano passado, Saki teve mais um pedaço da perna direita amputado.
“Eu fui treinando os músculos e não sabia se teria resultado, mas quando percebi que estava me recuperando, fui ficando mais animada. Passei a movimentar o meu corpo com a reabilitação e os sentimentos de querer morrer foram embora”, disse.
O trabalho nas redes sociais

No Twitter, ela mostrou como ficou depois das cirurgias e a sua motivação para seguir em frente. Reprodução / Twitter @sakik75069246
Depois de tudo o que viveu e superou, a jovem iniciou um trabalho nas redes sociais para compartilhar a própria história e trazer um pouco de luz para outros jovens que sofrem depressão, já pensaram ou já tentaram cometer suicídio.
Saki também foca suas mensagens de força e esperança para a comunidade de deficientes físicos, outras pessoas que sofreram acidentes ou doenças hereditárias e que enfrentam limitações físicas e preconceito.
Ela também compartilha suas alegrias do dia a dia. Três anos após o acidente, Saki conseguiu ir com os irmãos para a Disneylândia de Tóquio, algo que não pensou que seria capaz de fazer de novo.
“Eu consegui ir para a Disney e fiquei muito feliz. Antes meus pais eram ocupados e eu gostava de passear com os meus irmãos e agora a gente foi de novo. Fico feliz de poder fazer algo que eu fazia antigamente. Logo depois do acidente, eu ia no máximo até a loja de conveniência mais perto”, revelou.
A conta do Twitter foi criada em janeiro de 2022 e rapidamente atraiu milhares de seguidores. Atualmente, ela compartilha sua rotina e sentimentos com mais de 67 mil pessoas e recebe muitas mensagens de outros jovens que estão enfrentando situações parecidas, como a pressão na escola, problemas em casa e a depressão.
“De vez em quando eu penso que eu podia simplesmente desaparecer e não faria falta, mas não penso mais em morrer por me achar insignificante. Eu dei trabalho para muitas pessoas por causa do acidente e o meu corpo ficou desse jeito e é claro que não posso comemorar o acidente, mas foi por causa disso que eu percebi como a minha família e os meus amigos são preciosos”.
Nas redes sociais, a principal missão de Saki é levar sua mensagem adiante e fazer com que suas palavras ajudem o máximo de pessoas que puder ajudar. Ela queria ser enfermeira e ajudar os outros antes do acidente e agora, encontrou um novo propósito e sabe que pode fazer a diferença usando apenas seu smartphone.
“Tem muitas pessoas doentes ou com deficiência que estão sofrendo no Japão agora e eu quero dizer a elas que a paisagem que elas estão vendo agora, não é tudo. No meu caso, eu achava que me formar em três anos era normal e eu não podia repetir o ano de jeito nenhum e isto virou a gota d’água que me fez pular na frente do trem e perder minhas pernas. Depois que o tempo passou, eu vi que não era nada demais repetir no ano e não tinha necessidade de sofrer toda aquela pressão. Quando se está depressivo, a sua capacidade de ver as coisas é limitada, mas pense no futuro, há algo muito mais grandioso que você pode visualizar para si”, sugeriu.
Twitter de Saki: @sakik75069246